sábado, 20 de novembro de 2010
Tudo malta amiga!
He sugested to Allen Dulles that the Americans and Russians should exchange spy lists because it would not make much difference. Anyway, he tought, a good many of them would turn out to be the same people."
in "The Dictionary of Espionage" de Cristopher Dobson Ronald Payne, London 1984, Grafton Books
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Atitude discreta, como se espera de um profissional do ramo

Dize a voz do povo francês - que, como dize a voz de vários povos, é a voz do Deus deles - que os bons espíritos encontram-se.
Se é assim, este cantinho (é pequenino mas é um torrãozinho de açúcar) está pejado dos ditos bpns espíritos porque inúmeros foram os que detectaram, através da opaca demissão do boss da secreta, um mundo tenebroso de hipóteses, possibilidades e potenciais entrechos romanescos.
Mas, por se tratar de um especialista, já aqui e aqui referenciado, transcrevo para o meu solitário mas persistente leitor, a crónica que S. Excelência João Paulo Guerra fez publicar no que ele próprio designa por “um jornal local de coloração salmonada”.
E aproveito para apresentar a S. Exª. os mais sinceros cumprimentos por ter juntado à já prenhíssima galeria de troféus a “Gazeta de Mérito”, galardão com que o distinguiu o selecto Clube de Jornalistas.
Aí vai, então, a apreciação de JPG sobre o estranho caso da demissão do espião-mor.
Espiões
David John Moore Cornwell, also known as John Le Carré, havia de ter gostado de inventor esta história. Mas lá na Cornualha, onde vive, não há histórias destas. E assim, o autor de «O espião que saiu do frio» tem que se contentar com a sua própria imaginação. E desse modo perde, porque a ficção a consideraria provavelmente absurda, a história do chefe dos espiões que anunciou a demissão na véspera de uma Cimeira da NATO no país cuja espionagem externa chefiava. O caso estará para a espionagem como Saltillo esteve nos anos 80 para o futebol: desencadear uma cena de contestação ao sistema mesmo em cima do acontecimento.
A verdade é que a Cimeira da NATO traz a Portugal mais de três mil espiões. Três mil credenciados, porque com os espiões a sério serão muitos mais. E num tal cenário, mais espião, menos espião não aquece nem arrefece. Acontece, porém, que o demissionário não é um espião qualquer: é, ou era, o chefe do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa, apresentado pelo conhecedor Diário de Notícias como uma espécie de «CIA portuguesa». A velha raposa David John Moore Cornwell exultaria com a informação de que o demissionário frequentou com aproveitamento o Curso de Língua Russa na Associação de Amizade e Cooperação Iuri Gagarin e não descansaria enquanto não lhe encontrasse na biografia uma passagem discreta por Cambridge. Mas isso daria apenas uma novela de ficção.
A realidade é que o chefe dos espiões portugueses anunciou a demissão em cima do acontecimento da Cimeira da NATO, apresentando como razões os cortes orçamentais que vão levar ao encerramento de várias estações da espionagem portuguesa.
A Cimeira da NATO começa com uma brecha no Ocidente e com Portugal a ter que tapar um buraco.
Diário Económico 19 Novembro 10
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Tinker, Tailor, Soldier, Spy
Foi à vida, o nosso “m” (em minúscula) nacional, o master spy lusitano.
A razão que transparece é m corte orçamental que fragilizou o Serviço e levou ao encerramento de várias e eficientes “estações”.
“Transparece”, digo eu e repito.
Que, nisto de espiões, de serviços, de intelligence nada é o que parece. E não quero crer, sabendo de ciência certa e experiência, o alto espírito patriótico que sempre insulfa os peitos indómitos dos profissionais do ramo, não quero acreditar que haja, por trás do gesto do Dr. Carvalho, motivações mercenárias ou contas de mercearia.
Vou por isso, procurar tirar a limpo a verdade que este jogo de espelhos esconde.
E, para já, prefiro pensar em algo mais épico como, por exemplo, o trabalho persistente de uma "toupeira" ou um confronto de vida ou morte, um clash de vontades titânicas, como aquele que Smiley testemunhou, entre Control e Percy Alleline.
Sim, prefiro.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Regressei de Hanoi
Perambulei, durante quase três semanas, pelo Sudeste Asiático, zona do mundo cujas convulsões constituíram, durante muito anos, o centro de grandes preocupações minhas e de enorme número de colegas das mais variegadas proveniências.
Há muito anos que não visitava nem a Indochina nem a Cochinchina.
Achei-as diferentes, mais mcdonaldizadas, tur-massificadas.
Um amigo, que muito prezo, chamou a minha treinadíssima atenção para a grande concentração de “calmeirões do Minnesota” , designação sob a qual agrupa todos os avantajados, ruidosos e infantilizados jovens provenientes dos USA e a quem, invariavelmente, deseja sorte semelhante à que os seus homólogos tiveram, há 40 anos, no Hanoi Hilton. Mas sempre houve uma melhoria, e os “calmeirões” de hoje já não ostentam fardas nem arcabuzes e não chegam de B-52.
Percorri o roteiro nostálgico que os homens (e mulheres) ma minha geração aqui cumprem. Visitei Danang, Hué e os túneis de Co Chin (falhei Dien Bien Phu), notei a iconografia do tio Ho, visitei o Hotel Rex e, claro, o Mausoléu de Nguyễn Sinh Cung.
Sobretudo em Saigão, acontecia que, de vez em quando, arrebatado pelos memórias (e, talvez, por um biquinho de senilidade) lançava rápidas miradas panorâmicas, esperando ver alguma cara conhecida, um gesto denunciador, uma atitude suspeita.
Mas, dos tempos exaltantes em que os Povos do Mundo cerravam fileiras à volta de Hanoi, só restam os fantasmas da memória e a versão já petrificada em linguagem de guia turístico.
Trouxe, para os netinhos, chapéus cónicos, sandálias de borracha de pneu e t-shirts com a efígie de Ho Chi Minh.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
A Justiça, o Dr. Teixeira dos Santos e Piotr, o letão
É que pode estar a acontecer algo que, se a hipótese se verificar, seria muito, mas mesmo muito, grave.
Alertou-me para o assunto um rapaz de Riga, na Latvijas Republika, que trabalha numa Agência de nome impronunciável e ingrafável, o Piotr Baranov, também conhecido como “Piotr, o letão”.
O Piotr é analista da imprensa em língua portuguesa e telefonou-me por um aparelho scrambled:
“Será possível, Filbi? Será possível que o vosso Governo esteja a criar uma crise destas proporções só para lixar as magistraturas? É que já são coincidências a mais…”.
Pedi-lhe que se explicasse.
O meu amigo, naquele russo com sotaque báltico que usa para falar comigo, hábito que data do tempo em que o meu letão era só incipiente, disparou:
“Primeiro, foi o Meritíssimo António Martins, júdico-sindicalista, que revelou que o Governo inventou os cortes orçamentais, os cortes salariais e os cortes nos subsídios só por mesquinha vingança contra os juízes que o andaram a incomodar com o caso “Face Oculta”; Agora, poucos dias depois, é Dr. João Palma, também dirigente sindical mas dos Magistrados do Ministério Público, que desvenda a manobra governamental e denuncia a manipulação dos dados de um relatório do Conselho da Europa, só para abandalhar a classe! E mais, um outro combativo sindicalista e Procurador, de seu nome Dr. Rui Cardoso, insiste que o Guverno‘fugou’ para a imprensa dados do relatório antes da divulgação oficial deste, com o claro intuito de denegrir, nota bem, Quim, DENEGRIR” – disse o Piotr, em maiúsculas - "a imagem dos magistrados. Provavelmente por causa do Freeport. Achas bem? É que eu tenho que reportar sobre isto ao Начальник” (em russo; epíteto carinhoso que poderíamos traduzir por “chefinho”).
É por isso que não vou descansar enquanto não tirar a limpo esta estranha história.
Se, de facto, tudo isto - a austeridade, os PEC vários, o deficit e os juros, as agências de rating, a cara de poucos amigos do Dr. Teixeira dos Santos et alia - for fruto apodrecido do ódio vesgo de S.Exª. o Governo a Juízes, Procuradores, escrivães, solicitadores e afins, estamos perante uma conspiração tão tenebrosa como o Caso Roswell.
E, então, temos o caldo entornado!
domingo, 24 de outubro de 2010
Palavras para quê? É um espião português!

O comportamento de Ernesto Simões intriga os serviços secretos britânicos. Kim Philby, que o conheceu num pub (e o aprresentou a Guy Burgess), desvenda o mistério, em 1968.
Hospedou-se em casa de um casal; o marido trabalhava na mesma fábrica. Montámos um esquema para vigiar os seus movimentos e interceptar a sua correspondência.
No espaço de poucos dias, Simões adoptou um comportamento que manteve até ao fim. Quando a sirene tocava, saía da fábrica com o senhorio e confirmava a sua entrada no pub mais próximo. A seguir, corria a pés juntos para casa. Só voltava a dar sinal de vida na manhã seguinte, para regressar à fabrica com o senhorio. Tentámos perceber a razão da sua pressa para chegar a casa. Uma investigação mais aprofundada permitiu uma explicação completamente satisfatória. Todas as tardes, ao chegar a casa, deitava a senhoria debaixo da mesa da cozinha (os vigilantes clandestinos teriam dificuldade em vê-los. Comia uma refeição apimentada e ia para a cama. (In Kim Philbie, My Silent War, the Autobiography of a Spy, Groove Press, Nova Iorque, 1968)
O espião é vulnerável: dinheiro, sexo e emoções. Só não age por ideologia… "
Araújo, Rui, O Diário Secreto que Salazar Não Leu, pgs. 117/118 , Ed. Oficina do Livro, 2008
Comentário: Espião nazi, em Inglaterra e, mesmo assim..., só pensava naquilo.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
O hábito que faz o monge
Eu saúdo, daqui, os combativos sindicalistas.
Não há nada de mais deletério para a ordem pública do que um senhor Guarda mal ataviado.
E se o senhor Ministro das Finanças persiste na sua implacável demanda de frugalidade, arriscamo-nos a ver, em breve, os guardiões da Ordem de aspecto andrajoso, patrulhando as ruas das nossas cidades de chinela havaiana presas nos dedos dos pés, camisas de botões pendentes e cassetetes a esconder largos rasgões nas pantalonas azuis.
Lembram-se do que aconteceu quando cortaram aos diplomatas o “subsídio de casaca”? Assistimos a cenas terríveis de Embaixadores a terem que disfarçar com as condecorações os buracos dos fatinhos coçados para serem recebidos por cabeças coroadas! E estou em condições de revelar que pelo menos um diplomata, águia entre as muitas águias daquele corpo de excelência(s), deixou de frequentar coquitéis quando a sua única camisa branca começou a apresentar colarinhos e punhos a desfiar.
Por estes caminhos, o que impedirá o Governo de preparar ataque semelhante ao Serviço? Que acontecerá se, amanhã, um ukase semelhante cair sobre aqueles dedicados profissionais e lhes for negado o módico subsídio de gabardine? Sem este imprescindível artigo, como poderão os soldados secretos da Pátria dissimular-se entre as massas populares ou infiltrar o INimigo?
Que responda quem puder.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
"Romance de uma conspiração"

Como anunciei, fui assistir ao lançamento de "Romance de uma conspiração", parece que ficção baseada em factos reais, do jornalista e escritor João Paulo Guerra.
Entrei na Livraria Barata com o chapéu, a Burberry’s de contrafacção e os óculos escuros que uso sempre que quero passar despercebido.
Estacionei atrás de um expositor,fingindo que folheava interessadamente um livro(1), enquanto lançava um olhar sobre a assistência.
Reconheci várias personalidades, dois conhecidos dirigentes da extrema direita de ar circunspecto e pose belicosa, muitos jornalistas, alguns “jornalistas” com tiques de gente do métier, e muitos populares.
O autor, João Paulo Guerra, fazia-se acompanhar dos netinhos.
Apresentou a obra a (legítima) jornalista Ana Sousa Dias.
Vou ler com a atenção que o tema exige e o autor merece.
Quando abordei o escritor, de livro em riste, para o autógrafo, ele perguntou: “Que nome ponho?”. Lembrei-me do Solnado, que foi seu amigo. Respondi: “Bote-lhe Maria Albertina”. Malandrice…
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(1) Constatei depois que se tratava do ”Guia Prático de Amamentação: Soluções Práticas de A a Z” de Claire Martin. Foi uma imprevidência indesculpável. Felizmente ninguém veio bisbilhotar o título da obra.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Espiões e espiinhos

Lembram-se da tempestade de verão que, no ano passado, se abateu sobre Belém e São Bento sobre o tema “quem escuta quem, quem espia quem”?
Lembram-se de um “café discreto na Avenida de Roma”, palco de encontros mais ou menos secretos entre “assessores” (pois, pois, assessores…) e “jornalistas” (sim, jornalistas ... nós percebemos)?
Foi nesse simpático estabelecimento de comes e bebes, com o qual, a partir desse episódio, passei a simpatizar, que hoje degluti o croissant simples e bica italiana com que quebro o jejum, frente aos matutinos da capital.
Eis senão quando esta notícia no DN chamou a minha atenção. “Medvedev condecora espiões”.
Lembrei-me de um comentário que na altura deixei num muito frequentado blog, o “Duas ou três coisas”, em que, com alguma nostalgia, tenho que o confessar, dava conta do desalento que o “caso dos espiões russos” em mim despertava.
De facto, a falta de profissionalismo, o “deixa andar” inconsequente, o desprezo pelas regras mais elementares de uma romântica clandestinidade, não agradaram ao velho guerreiro que sou, retirado é certo, mas ainda atento e apreciador da velhíssima “arte”.
O prenúncio desta condecoração, de que o periódico que o senhor João Marcelino tão proficientemente dirige nos dá conta, veio poucos dias a seguir à troca entre os “Dez” e os “Quatro” (respectivamente russos e americanos, está bem de ver):
O mesmo Medvedev, Dimitri de sua graça e Presidente da outrora gloriosa Rússia, oferecia (pasme-se!) aos “seus” agentes, que se tinham deixado desmascarar sem sequer terem executado uma acção, transmitido uma informação valiosa, “virado” um alto dignitário da Administração Obama, PENSÃO VITALÍCIA E CASA PAGA! Denunciou este escândalo, aqui, o próprio “Expresso”, esse arauto da competência e da lisura!
Ora, se o grupito de funcionários, yuppies e flausinas (como aquela cuja fotografia ilustra este post, uma tal Anna Chapman de seu nome), apanhados como moscas burocráticas na redezinha borboleteira da contra-espionagem americana, já tinham direito a pensão vitalícia (choruda, estou certo) e a casa paga (luxuosa, ça va de soi) porque não uma condecoração? Porque não a Grã Cruz da Ordem de Ivan “o pateta”?
Nos tempos heróicos, o velho e combativo KGB honrava os seus heróis conferindo-lhe altas patentes militares que eles, dada a sua condição de clandestinidade, nem sequer podiam publicitar. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o meu ainda familiar Harold Adrian Russell, mais conhecido pelo petit nom de Kim, meu homófono por coincidência da História ou private joke dos meus progenitores, feito General.
Agora, é pensãozinha, quatro assoalhadas e uma comenda…
Tristes dias!
Espião? Não, quando muito espiinho.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Capacetes na Igreja e confiança na Providência

Iguais adereços, generosamente distribuídos pelo Pe João Nogueira, adornavam os piedosos cocurutos dos fiéis.
A congregação entendia protestar assim contra o estado de degradação a que do templo; e, também, chamar a atenção para a recusa do Ministério das Finanças em transferir para a propriedade da Igreja o imóvel em questão, confiscado pelo Estado, se as gazetas não mentem, no dia 8 de Outubro de 1910, à Companhia de Jesus.
As ovelhas que o Prior de Stº. António de Campolide pastoreia receberam com palmas a homilia e, à saída, não pouparam o Governo, agremiação de pedreiros-livres e herdeiros de carbonários e regicidas, quando falaram com os jornalistas que, por acaso iam passando pala Travessa Estêvão Pinto. Mas os capacetes, que o clérigo afiançou não serem necessários os domingos , “mas se calhar estamos próximos” , podem ter um efeito preverso. Por exemplo, quando contei o caso a um “correspondente” de um país do extinto Pacto de Varsóvia, que eu julgava já completamente integrado no espírito democrático que lá reina agora, ele respondeu sibilinamente: "Pois, Quim, os capacetes são como os pára-raios”. E, perante a meu pedido de esclarecimento, ele replicou com um ar sinistramente bolchevista: “ Lembraste como se cantava nas reuniões juvenis da esquerda festiva do teu tempo: ‘pára-raios nas igrejas/ são p’ra mostrar aos ateus…’ “.
Pedi-lhe que se deixasse de provocações, que já lá vai o tempo em que essa sua especialidade era muito utilizada.
Mas fiquei a matutar num outro pecadilho do devoto sacerdote: foi quando apostrofou o Estado, e, na passada, o Ministro Teixeira dos Santos, relapso e contumaz, a quem acusou de “hipocrisia” porque há cem anos que a coisa dura e nem a ditadura o resolveu! Foi então que, de acordo com o “Público”, Sua Reverência exclamou: “Achamos que o Estado que nos tutela, sendo uma pessoa de bem, não pode lucrar com um imóvel que roubou”.
E é aqui uma espécie de paradoxo se insinuou nas palavras , pelos vistos menos inspiradas pelo Espírito Santo. É que ou o Estado é uma “pessoa de bem” e então não poderia ter cometido o feio pecado do roubo ou roubou e, nesse caso, não é pessoa de bem.
domingo, 17 de outubro de 2010
A segunda mais velha profissão...

Knightley, Phillip, The Second Oldest Profession, pg. 34 (London, 1987, Pan Books Ltd.)
Comentário: Quem não arrisca... E se fosse mesmo um código?
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Romance de uma conspiração

Era uma voz que, como qualquer profissional experimentado com facilidade detectaria, estava a ser transmitida por meio de um aparelho scrambled.
E que dizia a voz?
A voz, com o estranho tom metálico da distorção electrónica, dizia: “Filbi? É para o avisar que, no dia 20, é lançado na livraria Barata da Av. De Roma, o livro de João Paulo Guerra intitulado “Romance de uma conspiração”.
Quando pedi ao meu interlocutor que se identificasse, ele respondeu: “Não posso. Isto é uma gravação”.
Bom, como não vale a pena conversar com uma gravação, desliguei.
Mas fiquei a matutar no assunto: de quem seria a misteriosa voz?
Primeiro, pensei que era o Donovan, um rapaz do meu tempo, residente em Langley, Virgínia, que sempre foi muito dado a folguedos e embustes mas incapaz de usar equipamento do serviço para fins não profissionais. Não, não era o Donovan que, além de tudo, fala português com o sotaque de Timor-leste, por onde andou, metido em confusões, aqui há uns anitos.
Quanto ao nome do autor do livro, João Paulo Guerra, claro que o conhecia já.
Mas, em benefício do meu isolado leitor, que pode não ter, como eu tenho, fontes de informação reforçadas, aqui fica a o perfil wikipédico.
Por outro lado, por deformação profissional, se me falam em “conspiração”, sou incapaz de resistir ou mesmo de disfarçar as reacções fisiológicas: ponho-me a salivar abundantemente, fico com as palmas das mãos suadas, tenho tonturas e não descanso enquanto não esclareço a coisa.
De modos que lá estarei, no dia 20, na Barata, atento e discreto, com deve ser.
Não tentem identificar-me, é tempo perdido: tanto posso ser a senhora de idade, de bengala e carrapito sentada na terceira fila, como o jornalista da téle-visão, de corneto em riste, estridente e agressivo.
Nós somos assim, camaleónicos.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
O Conselho de Segurança, a Segurança e a Diplomacia
Antes de postar, deixei baixar o volume de som do coro de encómios, aplausos, louvores, elogios e congratulações com que foi saudada (e bem) a eleição de Portugal para o Conselho de Segurança.
Os títulos das gazetas, as apóstrofes da telefonia, os entusiasmos da téle-visão pareciam tirados daquele cartoon do "Spy versus Spy", só que os dois "Spy" eram brancos: “está de parabéns o MNE”, o “PM congratula-se”, “o Presidente da República elogia”, “a diplomacia portuguesa vitoriosa”, e aí por diante.
Certamente, a ocasião propicia esta polifonia; e a auto-estima nacional, que nem o Raul Meireles e os seus pares têm conseguido ajudar a crescer, andava necessitada de qualquer coisinha que adiasse o mergulho definitivo na depressão mediática.
Pelo menos até à próxima conversa do Dr. Medina Carreira com o Dr. Mário Crespo.
E são merecidos, os elogios tão amplamente distribuídos.
Entre eles, saliento os que foram dirigidos aos “primos” diplomatas, gentis Penélopes (1) tecendo, na Ítaca global, a grande teia que cujo nó final foi a sessão do dia 12.
Aproveito, então, para procurar desfazer um equívoco, de que são responsáveis autores de romances de espionagem e campanhas de desinformação de colegas menos escrupulosos (que também os há, embora raros).
Trata-se de um manto de calúnias e insinuações lançado sobre o pundonor de duas laboriosas classes profissionais: o despudorado insulto que sugere promiscuidade entre os diplomatas e os profissionais da minha área.
Não! Concorremos no mesmo objectivo? Sim.
Utilizamos meios e processos por vezes semelhantes? Muitas vezes.
Temos marcada gosto pelo gin tonic with a slice of lemon( twisted, not squeezed)? É certo.
Atraem-nos as mulheres voluptuosas, louras, em bikini branco e sapatos de salto agulha? So what?
Circulamos em carros desportivos potentes, cheios de gadjets, estofos de couro e tabliers de madeira de teca? Claro.
Falamos várias línguas? Que remédio...
Mas as semelhanças param por aí.
E isto é um facto que conheço de fonte segura. Garantiu-mo, há muitas décadas, numa capital em guerra de um país do Médio Oriente, um simpático diplomata soviético.
“ Nós, lá na Lubianka” – disse-me o Conselheiro de Embaixada Oleg Penkovsky, num tom de sinceridade que excluía qualquer suspeita – “nunca confundimos as duas profissões”.
Acho que “Lubianka” é como eles chamavam ao MNE deles, tal como nós chamamos “Necessidades” ao nosso.
Seja como for, espero que os colegas no activo se ponham à disposição do Embaixador Moraes Cabral, para os precisos.
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(1) Que não se queira ver no devaneio poético desta metonímia alguma torpe insinuação sobre a masculinidade dos nossos (não me refiro às nossas) diplomatas, cujas presenças musculadas e hirsutas, vozes cavas e ombros largos, os colocam ao abrigo de qualquer suspeita dessa natureza.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Os ricos que paguem a crise!
Sentei-me à mesa do café, pedi um discreto croissant e uma universal bica, abri o Diário de Notícias nas folhas centrais e rasguei nelas os buraquinhos circulares que iam permitir-me observar os circunstantes sem que eles reparassem que estavam a ser objecto da minha curiosidade. (1)
Eis senão quando um pequeno salto na cadeira me fez sujar de café a gabardine Burberrys (de contrafacção) que uso para ninguém adivinhar a minha profissão, alarmado que fui por uma funesta notícia.
“Claro” – pensei eu com os botões do meu velho agasalho e disfarce – “são sempre os mesmos a pagar! À mais pequena crise, onde é que se corta? Nas ‘secretas’, como lhes chama o plumitivo do DN. Estou mesmo a ver o Ministro das Finanças, dando pequenas gargalhadas mefistofélicas, a rosnar para o PM ‘os espiões que paguem a crise’ ”.
Mas, felizmente, ainda há neste país gente responsável, patriotas que sabem distinguir que salários são importantes e os que o não são; que se apercebem de que está certo cortar os dos funcionários públicos, notem bem públicos mas não os dos agentes de informações que, por definição, não são públicos, são secretos!
Ainda há, ainda há!
Veja-se a forma como o Presidente do Conselho de Fiscalização do Sistema de Informações da República, o deputado Marques Júnior ( e se ele é especialista…) reage, magoado: “é preciso reflectir muito bem na forma como se vai decidir sobre estas matérias". E acrescenta que, no seu relatório de 2009, o CFSIRP já alertava para as restrições orçamentais que se fizeram sentir nos Serviços de Informações.
Também o PSD se insurgiu com mais este golpe contra profissionais heróicos e dedicados, prontos a dar a sua última gota de whisky pela segurança da Pátria. O deputado Bacelar Gouveia, expert que eu proponho para a dignidade de Agente Honorário, chama a atenção de quem nos governa para que é exactamente em tempos de crise que não se devem cortar os módicos salários dessa classe tão sacrificada: "Em tempo de crise, a recolha de informações em cenários internacionais, conflitos regionais, aspectos macroeconómicos e tendências de mercado, são fulcrais para os interesses estratégicos do Estado português."
É a voz da razão, o Grilo Falante que aconselha Pinóquio (não vejam maldade nesta metáfora; estou mesmo a falar do Pinóquio da literatura, o do Carlo Collodi, o "filho" do Gepetto).
Lucidamente, o CDS-PP toma, também, posição: acompanha com preocupação a discussão pública de uma matéria reservada e adverte que "apesar da situação económica grave, não se podem pôr em causa as tarefas fundamentais do Estado, como a Segurança".
É assim, meus senhores! É assim que se defendem os interesses da Nação!
Como querem V. Exas. que os profissionais deste métier exerçam com lealdade as funções que lhes foram confiadas, como juraram, caras cobertas por cagulas e voz distorcida electronicamente, quando tomaram posse?
Como comprar bigodes postiços, tinta invisível e frasquinhos de clorofórmio, instrumentos de trabalho imprescindíveis, que são as enxadas destes lavradores do mundo secreto?
Como pagar uma champanhota às pulposas colegas do IN, antes de as seduzir com o smoking da praxe, os passeios no Austin Martin, a voz cava, como a que eu usava nos neus tempos de glória, ao anunciar “o meu nome é Rebordosa, Joaquim Rebordosa”?
Ah! Se eu tivesse levado a minha avante (salvo seja!) e tivesse criado, a devido tempo, em 1975, o “Sindicato dos Espias do Sul e Ilhas”.
Mas, como todos os visionários, foi injuriado, ridicularizado, ignorado.
Maldita cocaína (cala-te, boca!)…
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(1) Desvendo este pequeno truque, que me foi ensinado por essa águia da intelligence que foi Natassya Seminova, agente da SMERSH e borboleta da noite, consciente de que estou a violar um segredo profissional.
Mas, como diriam os jornalistas, o público tem o direito de ser informado.
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PS (que Deus me perdoe):
Algumas horas depois de postado o texto acima, recebi um telefonema de um jovem amigo venezuelano, o Miguel Cantante, "El ratón", dedicado ex-funcionário da Dirección de los Servicios de Inteligencia y Prevención, de passagem em Lisboa integrando a Missão Avançada que prepara a próxima visita ao nosso País do Hugo Rafael, como "El ratón" chama familiarmente ao Presidente Chávez Frias.
Informava-me o meu amigo ( e não lhe perguntei como sabia em virtude da regra sacrossanta do the need to know ) que o DN eliminara da edição electrónica a notícia linkada (ah, estes barbarismos...).
Não sou estulto ao ponto de pensar que a acçãodo vetusto diário da capital se deve à minha modesta intervenção; mas lá que a notícia deixou de poder ser linkada, lá isso deixou...
Como não quero que o meu fiel e persistente leitor possa arguir a falsidade das declarações que atribuo aos estadistas que, em boa hora, defendem uma classe heróica e abnegada, aqui vai o texto integral e fiel, ipsis verbis et ad litteram, da notícia em causa, tal como podem constatar aqueles que, não sendo membros da lusa intelligence, se podem dar ao luxo de comprar o periódico, prodigalidade à malta do "Serviço" e a alguns depurados do PS frequentadores da cantina de São Bento.
Eis, pois, o texto da notícia:
Cortes comprometem 'secretas' no estrangeiro
Segurança As restrições orçamentais previstas para 2011 nos serviços de informações nacionais vão levar ao encerramento de dois terços das estações das “secretas” no estrangeiro. Com este corte drástico, Portugal perde as suas “antenas” em países estratégicos e reduz a sua actividade operacional noutros, como é o caso do Líbano e do Afeganistão, onde estão missões militares portuguesas. Segundo admitiu ao DN uma fonte bem colocada na inteligência nacional, “no caso do SIS serão reduzidas significativamente as despesas operacionais, mas no SIED terão de ser encerradas oito das 12 “estações” que neste momento estão a operar no estrangeiro”. A mesma fonte reconheceu ainda que “a situação é muito pior” que a que ontem foi descrita pelo Público, embora não estejam previstos os “despedimentos” anunciados pelo jornal.
Estas medidas são vistas com “muita preocupação” pelo presidente do Conselho de Fiscalização do Sistema da República Portuguesa (CFSIRP). Marques Júnior assegura, contudo, ter tido “a garantia de princípio por parte do secretário-geral do SIRP, que tais cortes não iriam prejudicar a actividade operacional dos serviços”. “Mas é preciso reflectir muito bem na forma como se vai decidir sobre estas matérias”, acrescenta. No seu relatório de 2009, o CFSIRP já alertava para “as restrições orçamentais” que se “fizeram sentir nos Serviços de Informações”.
O anterior presidente do Conselho de Fiscalização, Bacelar Gouveia, deputado do PSD, concorda em que “nenhum serviço da administração pública deve ficar “imune à crise”, mas sublinha a importância das “antenas” do SIED: “Em tempo de crise, a recolha de informações em cenários internacionais, conflitos regionais, aspectos macroeconómicos e tendências de mercado, são fulcrais para os interesses estratégicos do Estado português. “Bacelar Gouveia pondera requerer à Comissão de Assuntos Constitucionais que chame o “chefe” do SIRP, Júlio Pereira, para “explicar como vai executar esta medida”.
O CDS-PP “acompanha com preocupação a discussão pública de uma matéria reservada” e adverte que “apesar da situação económica grave, não se podem pôr em causa as tarefas fundamentais do Estado, como a Segurança”. O deputado Nuno Magalhães sugere que o CFSIRP se reúna com Júlio Pereira e “avalie a situação”.
VALENTINA MARCELINO
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
APRESENTAÇÃO
Na verdade, apresentar-me é um contra-senso, um ilogismo, um disparate e um risco: é que, ao contrário da maioria das pessoas, eu ganho em não ser conhecido.
Mais, na minha antiga ocupação, o melhor profissional é aquele que ninguém sabe quem é. É por isso que o maior elogio que eu costumava dirigira uma grande adversária, rapariga do meu tempo, com quem tive a honra de cruzar armas era "nem te enxergas, Luciazinha." (1)
Mas a vida é o que é e vão longe os tempos heróicos em o amor da Pátria ou, em casos mais conhecidos, o Poder da maçaroca, era suficiente recompensa para a gente do “trade”.
E, depois, até um primo afastado, do ramo britânico da família, não resistiu e escreveu, na romântica Moscovo dos bons velhos tempo, a nostálgica narrativa dos seus feitos.
Pois bem, este blog será a narrativa da “My Silent War” e, ao longo dos posts que aqui colocarei, entre informação, comentários e apelos, deixarei cair, de quando em vez, uma ou outra notícula biográfica.
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(1) Irmã Lúcia, “nom de guerre” de uma temível agente secreta, cuja vida e obra evoquei noutro local: