
Dize a voz do povo francês - que, como dize a voz de vários povos, é a voz do Deus deles - que os bons espíritos encontram-se.
Se é assim, este cantinho (é pequenino mas é um torrãozinho de açúcar) está pejado dos ditos bpns espíritos porque inúmeros foram os que detectaram, através da opaca demissão do boss da secreta, um mundo tenebroso de hipóteses, possibilidades e potenciais entrechos romanescos.
Mas, por se tratar de um especialista, já aqui e aqui referenciado, transcrevo para o meu solitário mas persistente leitor, a crónica que S. Excelência João Paulo Guerra fez publicar no que ele próprio designa por “um jornal local de coloração salmonada”.
E aproveito para apresentar a S. Exª. os mais sinceros cumprimentos por ter juntado à já prenhíssima galeria de troféus a “Gazeta de Mérito”, galardão com que o distinguiu o selecto Clube de Jornalistas.
Aí vai, então, a apreciação de JPG sobre o estranho caso da demissão do espião-mor.
Espiões
David John Moore Cornwell, also known as John Le Carré, havia de ter gostado de inventor esta história. Mas lá na Cornualha, onde vive, não há histórias destas. E assim, o autor de «O espião que saiu do frio» tem que se contentar com a sua própria imaginação. E desse modo perde, porque a ficção a consideraria provavelmente absurda, a história do chefe dos espiões que anunciou a demissão na véspera de uma Cimeira da NATO no país cuja espionagem externa chefiava. O caso estará para a espionagem como Saltillo esteve nos anos 80 para o futebol: desencadear uma cena de contestação ao sistema mesmo em cima do acontecimento.
A verdade é que a Cimeira da NATO traz a Portugal mais de três mil espiões. Três mil credenciados, porque com os espiões a sério serão muitos mais. E num tal cenário, mais espião, menos espião não aquece nem arrefece. Acontece, porém, que o demissionário não é um espião qualquer: é, ou era, o chefe do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa, apresentado pelo conhecedor Diário de Notícias como uma espécie de «CIA portuguesa». A velha raposa David John Moore Cornwell exultaria com a informação de que o demissionário frequentou com aproveitamento o Curso de Língua Russa na Associação de Amizade e Cooperação Iuri Gagarin e não descansaria enquanto não lhe encontrasse na biografia uma passagem discreta por Cambridge. Mas isso daria apenas uma novela de ficção.
A realidade é que o chefe dos espiões portugueses anunciou a demissão em cima do acontecimento da Cimeira da NATO, apresentando como razões os cortes orçamentais que vão levar ao encerramento de várias estações da espionagem portuguesa.
A Cimeira da NATO começa com uma brecha no Ocidente e com Portugal a ter que tapar um buraco.
Diário Económico 19 Novembro 10
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