" Can there really be any need for all this spying?' is the question most frequently put - and expecting the answer 'No' - when espionage is talked abou by those not involved in it. Nikita Kruschev, at the height of his rampanging as the Soviet leader, once professed to express the same view in a bantering exchange.
He sugested to Allen Dulles that the Americans and Russians should exchange spy lists because it would not make much difference. Anyway, he tought, a good many of them would turn out to be the same people."
in "The Dictionary of Espionage" de Cristopher Dobson Ronald Payne, London 1984, Grafton Books
Quim Filbi
sábado, 20 de novembro de 2010
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Atitude discreta, como se espera de um profissional do ramo

Dize a voz do povo francês - que, como dize a voz de vários povos, é a voz do Deus deles - que os bons espíritos encontram-se.
Se é assim, este cantinho (é pequenino mas é um torrãozinho de açúcar) está pejado dos ditos bpns espíritos porque inúmeros foram os que detectaram, através da opaca demissão do boss da secreta, um mundo tenebroso de hipóteses, possibilidades e potenciais entrechos romanescos.
Mas, por se tratar de um especialista, já aqui e aqui referenciado, transcrevo para o meu solitário mas persistente leitor, a crónica que S. Excelência João Paulo Guerra fez publicar no que ele próprio designa por “um jornal local de coloração salmonada”.
E aproveito para apresentar a S. Exª. os mais sinceros cumprimentos por ter juntado à já prenhíssima galeria de troféus a “Gazeta de Mérito”, galardão com que o distinguiu o selecto Clube de Jornalistas.
Aí vai, então, a apreciação de JPG sobre o estranho caso da demissão do espião-mor.
Espiões
David John Moore Cornwell, also known as John Le Carré, havia de ter gostado de inventor esta história. Mas lá na Cornualha, onde vive, não há histórias destas. E assim, o autor de «O espião que saiu do frio» tem que se contentar com a sua própria imaginação. E desse modo perde, porque a ficção a consideraria provavelmente absurda, a história do chefe dos espiões que anunciou a demissão na véspera de uma Cimeira da NATO no país cuja espionagem externa chefiava. O caso estará para a espionagem como Saltillo esteve nos anos 80 para o futebol: desencadear uma cena de contestação ao sistema mesmo em cima do acontecimento.
A verdade é que a Cimeira da NATO traz a Portugal mais de três mil espiões. Três mil credenciados, porque com os espiões a sério serão muitos mais. E num tal cenário, mais espião, menos espião não aquece nem arrefece. Acontece, porém, que o demissionário não é um espião qualquer: é, ou era, o chefe do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa, apresentado pelo conhecedor Diário de Notícias como uma espécie de «CIA portuguesa». A velha raposa David John Moore Cornwell exultaria com a informação de que o demissionário frequentou com aproveitamento o Curso de Língua Russa na Associação de Amizade e Cooperação Iuri Gagarin e não descansaria enquanto não lhe encontrasse na biografia uma passagem discreta por Cambridge. Mas isso daria apenas uma novela de ficção.
A realidade é que o chefe dos espiões portugueses anunciou a demissão em cima do acontecimento da Cimeira da NATO, apresentando como razões os cortes orçamentais que vão levar ao encerramento de várias estações da espionagem portuguesa.
A Cimeira da NATO começa com uma brecha no Ocidente e com Portugal a ter que tapar um buraco.
Diário Económico 19 Novembro 10
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Tinker, Tailor, Soldier, Spy
Demitiu-se, segundo as gazetas, o chefe dos espiões portugueses!
Foi à vida, o nosso “m” (em minúscula) nacional, o master spy lusitano.
A razão que transparece é m corte orçamental que fragilizou o Serviço e levou ao encerramento de várias e eficientes “estações”.
“Transparece”, digo eu e repito.
Que, nisto de espiões, de serviços, de intelligence nada é o que parece. E não quero crer, sabendo de ciência certa e experiência, o alto espírito patriótico que sempre insulfa os peitos indómitos dos profissionais do ramo, não quero acreditar que haja, por trás do gesto do Dr. Carvalho, motivações mercenárias ou contas de mercearia.
Vou por isso, procurar tirar a limpo a verdade que este jogo de espelhos esconde.
E, para já, prefiro pensar em algo mais épico como, por exemplo, o trabalho persistente de uma "toupeira" ou um confronto de vida ou morte, um clash de vontades titânicas, como aquele que Smiley testemunhou, entre Control e Percy Alleline.
Sim, prefiro.
Foi à vida, o nosso “m” (em minúscula) nacional, o master spy lusitano.
A razão que transparece é m corte orçamental que fragilizou o Serviço e levou ao encerramento de várias e eficientes “estações”.
“Transparece”, digo eu e repito.
Que, nisto de espiões, de serviços, de intelligence nada é o que parece. E não quero crer, sabendo de ciência certa e experiência, o alto espírito patriótico que sempre insulfa os peitos indómitos dos profissionais do ramo, não quero acreditar que haja, por trás do gesto do Dr. Carvalho, motivações mercenárias ou contas de mercearia.
Vou por isso, procurar tirar a limpo a verdade que este jogo de espelhos esconde.
E, para já, prefiro pensar em algo mais épico como, por exemplo, o trabalho persistente de uma "toupeira" ou um confronto de vida ou morte, um clash de vontades titânicas, como aquele que Smiley testemunhou, entre Control e Percy Alleline.
Sim, prefiro.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Regressei de Hanoi
Perambulei, durante quase três semanas, pelo Sudeste Asiático, zona do mundo cujas convulsões constituíram, durante muito anos, o centro de grandes preocupações minhas e de enorme número de colegas das mais variegadas proveniências.
Há muito anos que não visitava nem a Indochina nem a Cochinchina.
Achei-as diferentes, mais mcdonaldizadas, tur-massificadas.
Um amigo, que muito prezo, chamou a minha treinadíssima atenção para a grande concentração de “calmeirões do Minnesota” , designação sob a qual agrupa todos os avantajados, ruidosos e infantilizados jovens provenientes dos USA e a quem, invariavelmente, deseja sorte semelhante à que os seus homólogos tiveram, há 40 anos, no Hanoi Hilton. Mas sempre houve uma melhoria, e os “calmeirões” de hoje já não ostentam fardas nem arcabuzes e não chegam de B-52.
Percorri o roteiro nostálgico que os homens (e mulheres) ma minha geração aqui cumprem. Visitei Danang, Hué e os túneis de Co Chin (falhei Dien Bien Phu), notei a iconografia do tio Ho, visitei o Hotel Rex e, claro, o Mausoléu de Nguyễn Sinh Cung.
Sobretudo em Saigão, acontecia que, de vez em quando, arrebatado pelos memórias (e, talvez, por um biquinho de senilidade) lançava rápidas miradas panorâmicas, esperando ver alguma cara conhecida, um gesto denunciador, uma atitude suspeita.
Mas, dos tempos exaltantes em que os Povos do Mundo cerravam fileiras à volta de Hanoi, só restam os fantasmas da memória e a versão já petrificada em linguagem de guia turístico.
Trouxe, para os netinhos, chapéus cónicos, sandálias de borracha de pneu e t-shirts com a efígie de Ho Chi Minh.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
A Justiça, o Dr. Teixeira dos Santos e Piotr, o letão
Decidi pôr-me em campo e investigar (pro bono, que o que tem que ser tem muita força) uma sucessão de estranhas notícias envolvendo S. Exª o Governo e as diversas magistraturas do País.
É que pode estar a acontecer algo que, se a hipótese se verificar, seria muito, mas mesmo muito, grave.
Alertou-me para o assunto um rapaz de Riga, na Latvijas Republika, que trabalha numa Agência de nome impronunciável e ingrafável, o Piotr Baranov, também conhecido como “Piotr, o letão”.
O Piotr é analista da imprensa em língua portuguesa e telefonou-me por um aparelho scrambled:
“Será possível, Filbi? Será possível que o vosso Governo esteja a criar uma crise destas proporções só para lixar as magistraturas? É que já são coincidências a mais…”.
Pedi-lhe que se explicasse.
O meu amigo, naquele russo com sotaque báltico que usa para falar comigo, hábito que data do tempo em que o meu letão era só incipiente, disparou:
“Primeiro, foi o Meritíssimo António Martins, júdico-sindicalista, que revelou que o Governo inventou os cortes orçamentais, os cortes salariais e os cortes nos subsídios só por mesquinha vingança contra os juízes que o andaram a incomodar com o caso “Face Oculta”; Agora, poucos dias depois, é Dr. João Palma, também dirigente sindical mas dos Magistrados do Ministério Público, que desvenda a manobra governamental e denuncia a manipulação dos dados de um relatório do Conselho da Europa, só para abandalhar a classe! E mais, um outro combativo sindicalista e Procurador, de seu nome Dr. Rui Cardoso, insiste que o Guverno‘fugou’ para a imprensa dados do relatório antes da divulgação oficial deste, com o claro intuito de denegrir, nota bem, Quim, DENEGRIR” – disse o Piotr, em maiúsculas - "a imagem dos magistrados. Provavelmente por causa do Freeport. Achas bem? É que eu tenho que reportar sobre isto ao Начальник” (em russo; epíteto carinhoso que poderíamos traduzir por “chefinho”).
É por isso que não vou descansar enquanto não tirar a limpo esta estranha história.
Se, de facto, tudo isto - a austeridade, os PEC vários, o deficit e os juros, as agências de rating, a cara de poucos amigos do Dr. Teixeira dos Santos et alia - for fruto apodrecido do ódio vesgo de S.Exª. o Governo a Juízes, Procuradores, escrivães, solicitadores e afins, estamos perante uma conspiração tão tenebrosa como o Caso Roswell.
E, então, temos o caldo entornado!
É que pode estar a acontecer algo que, se a hipótese se verificar, seria muito, mas mesmo muito, grave.
Alertou-me para o assunto um rapaz de Riga, na Latvijas Republika, que trabalha numa Agência de nome impronunciável e ingrafável, o Piotr Baranov, também conhecido como “Piotr, o letão”.
O Piotr é analista da imprensa em língua portuguesa e telefonou-me por um aparelho scrambled:
“Será possível, Filbi? Será possível que o vosso Governo esteja a criar uma crise destas proporções só para lixar as magistraturas? É que já são coincidências a mais…”.
Pedi-lhe que se explicasse.
O meu amigo, naquele russo com sotaque báltico que usa para falar comigo, hábito que data do tempo em que o meu letão era só incipiente, disparou:
“Primeiro, foi o Meritíssimo António Martins, júdico-sindicalista, que revelou que o Governo inventou os cortes orçamentais, os cortes salariais e os cortes nos subsídios só por mesquinha vingança contra os juízes que o andaram a incomodar com o caso “Face Oculta”; Agora, poucos dias depois, é Dr. João Palma, também dirigente sindical mas dos Magistrados do Ministério Público, que desvenda a manobra governamental e denuncia a manipulação dos dados de um relatório do Conselho da Europa, só para abandalhar a classe! E mais, um outro combativo sindicalista e Procurador, de seu nome Dr. Rui Cardoso, insiste que o Guverno‘fugou’ para a imprensa dados do relatório antes da divulgação oficial deste, com o claro intuito de denegrir, nota bem, Quim, DENEGRIR” – disse o Piotr, em maiúsculas - "a imagem dos magistrados. Provavelmente por causa do Freeport. Achas bem? É que eu tenho que reportar sobre isto ao Начальник” (em russo; epíteto carinhoso que poderíamos traduzir por “chefinho”).
É por isso que não vou descansar enquanto não tirar a limpo esta estranha história.
Se, de facto, tudo isto - a austeridade, os PEC vários, o deficit e os juros, as agências de rating, a cara de poucos amigos do Dr. Teixeira dos Santos et alia - for fruto apodrecido do ódio vesgo de S.Exª. o Governo a Juízes, Procuradores, escrivães, solicitadores e afins, estamos perante uma conspiração tão tenebrosa como o Caso Roswell.
E, então, temos o caldo entornado!
domingo, 24 de outubro de 2010
Palavras para quê? É um espião português!

"A Percival Aircraft Company contrata Ernesto Simões a pedido da contra-espionagem. É uma forma de controlar a eficácia dos serviços e, por outro lado, de apreender o modus operandi e os contactos dos agentes do Eixo no Reino Unido. No dia 16 de Agosto o mecânico aluga um quarto e a 19 de Agosto (no dia em que Liddell dita à secretário esta nota) começa a trabalhar na fábrica de aviões.
O comportamento de Ernesto Simões intriga os serviços secretos britânicos. Kim Philby, que o conheceu num pub (e o aprresentou a Guy Burgess), desvenda o mistério, em 1968.
Hospedou-se em casa de um casal; o marido trabalhava na mesma fábrica. Montámos um esquema para vigiar os seus movimentos e interceptar a sua correspondência.
No espaço de poucos dias, Simões adoptou um comportamento que manteve até ao fim. Quando a sirene tocava, saía da fábrica com o senhorio e confirmava a sua entrada no pub mais próximo. A seguir, corria a pés juntos para casa. Só voltava a dar sinal de vida na manhã seguinte, para regressar à fabrica com o senhorio. Tentámos perceber a razão da sua pressa para chegar a casa. Uma investigação mais aprofundada permitiu uma explicação completamente satisfatória. Todas as tardes, ao chegar a casa, deitava a senhoria debaixo da mesa da cozinha (os vigilantes clandestinos teriam dificuldade em vê-los. Comia uma refeição apimentada e ia para a cama. (In Kim Philbie, My Silent War, the Autobiography of a Spy, Groove Press, Nova Iorque, 1968)
O espião é vulnerável: dinheiro, sexo e emoções. Só não age por ideologia… "
Araújo, Rui, O Diário Secreto que Salazar Não Leu, pgs. 117/118 , Ed. Oficina do Livro, 2008
Comentário: Espião nazi, em Inglaterra e, mesmo assim..., só pensava naquilo.
O comportamento de Ernesto Simões intriga os serviços secretos britânicos. Kim Philby, que o conheceu num pub (e o aprresentou a Guy Burgess), desvenda o mistério, em 1968.
Hospedou-se em casa de um casal; o marido trabalhava na mesma fábrica. Montámos um esquema para vigiar os seus movimentos e interceptar a sua correspondência.
No espaço de poucos dias, Simões adoptou um comportamento que manteve até ao fim. Quando a sirene tocava, saía da fábrica com o senhorio e confirmava a sua entrada no pub mais próximo. A seguir, corria a pés juntos para casa. Só voltava a dar sinal de vida na manhã seguinte, para regressar à fabrica com o senhorio. Tentámos perceber a razão da sua pressa para chegar a casa. Uma investigação mais aprofundada permitiu uma explicação completamente satisfatória. Todas as tardes, ao chegar a casa, deitava a senhoria debaixo da mesa da cozinha (os vigilantes clandestinos teriam dificuldade em vê-los. Comia uma refeição apimentada e ia para a cama. (In Kim Philbie, My Silent War, the Autobiography of a Spy, Groove Press, Nova Iorque, 1968)
O espião é vulnerável: dinheiro, sexo e emoções. Só não age por ideologia… "
Araújo, Rui, O Diário Secreto que Salazar Não Leu, pgs. 117/118 , Ed. Oficina do Livro, 2008
Comentário: Espião nazi, em Inglaterra e, mesmo assim..., só pensava naquilo.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
O hábito que faz o monge
Li hoje aqui, no conceituado quotidiano “Público”, a notícia de que o Sindicato Nacional da Polícia se prepara para arrestar os bens da Direcção Nacional da PSP que não tem, por falta de liquidez, sublinha o jornal, pago os subsídios de fardamento.
Eu saúdo, daqui, os combativos sindicalistas.
Não há nada de mais deletério para a ordem pública do que um senhor Guarda mal ataviado.
E se o senhor Ministro das Finanças persiste na sua implacável demanda de frugalidade, arriscamo-nos a ver, em breve, os guardiões da Ordem de aspecto andrajoso, patrulhando as ruas das nossas cidades de chinela havaiana presas nos dedos dos pés, camisas de botões pendentes e cassetetes a esconder largos rasgões nas pantalonas azuis.
Lembram-se do que aconteceu quando cortaram aos diplomatas o “subsídio de casaca”? Assistimos a cenas terríveis de Embaixadores a terem que disfarçar com as condecorações os buracos dos fatinhos coçados para serem recebidos por cabeças coroadas! E estou em condições de revelar que pelo menos um diplomata, águia entre as muitas águias daquele corpo de excelência(s), deixou de frequentar coquitéis quando a sua única camisa branca começou a apresentar colarinhos e punhos a desfiar.
Por estes caminhos, o que impedirá o Governo de preparar ataque semelhante ao Serviço? Que acontecerá se, amanhã, um ukase semelhante cair sobre aqueles dedicados profissionais e lhes for negado o módico subsídio de gabardine? Sem este imprescindível artigo, como poderão os soldados secretos da Pátria dissimular-se entre as massas populares ou infiltrar o INimigo?
Que responda quem puder.
Eu saúdo, daqui, os combativos sindicalistas.
Não há nada de mais deletério para a ordem pública do que um senhor Guarda mal ataviado.
E se o senhor Ministro das Finanças persiste na sua implacável demanda de frugalidade, arriscamo-nos a ver, em breve, os guardiões da Ordem de aspecto andrajoso, patrulhando as ruas das nossas cidades de chinela havaiana presas nos dedos dos pés, camisas de botões pendentes e cassetetes a esconder largos rasgões nas pantalonas azuis.
Lembram-se do que aconteceu quando cortaram aos diplomatas o “subsídio de casaca”? Assistimos a cenas terríveis de Embaixadores a terem que disfarçar com as condecorações os buracos dos fatinhos coçados para serem recebidos por cabeças coroadas! E estou em condições de revelar que pelo menos um diplomata, águia entre as muitas águias daquele corpo de excelência(s), deixou de frequentar coquitéis quando a sua única camisa branca começou a apresentar colarinhos e punhos a desfiar.
Por estes caminhos, o que impedirá o Governo de preparar ataque semelhante ao Serviço? Que acontecerá se, amanhã, um ukase semelhante cair sobre aqueles dedicados profissionais e lhes for negado o módico subsídio de gabardine? Sem este imprescindível artigo, como poderão os soldados secretos da Pátria dissimular-se entre as massas populares ou infiltrar o INimigo?
Que responda quem puder.
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