terça-feira, 12 de outubro de 2010

Os ricos que paguem a crise!

Esta manhã cumpri o meu ritual do pequeno almoço.
Sentei-me à mesa do café, pedi um discreto croissant e uma universal bica, abri o Diário de Notícias nas folhas centrais e rasguei nelas os buraquinhos circulares que iam permitir-me observar os circunstantes sem que eles reparassem que estavam a ser objecto da minha curiosidade. (1)
Eis senão quando um pequeno salto na cadeira me fez sujar de café a gabardine Burberrys (de contrafacção) que uso para ninguém adivinhar a minha profissão, alarmado que fui por uma funesta notícia.
“Claro” – pensei eu com os botões do meu velho agasalho e disfarce – “são sempre os mesmos a pagar! À mais pequena crise, onde é que se corta? Nas ‘secretas’, como lhes chama o plumitivo do DN. Estou mesmo a ver o Ministro das Finanças, dando pequenas gargalhadas mefistofélicas, a rosnar para o PM ‘os espiões que paguem a crise’ ”.
Mas, felizmente, ainda há neste país gente responsável, patriotas que sabem distinguir que salários são importantes e os que o não são; que se apercebem de que está certo cortar os dos funcionários públicos, notem bem públicos mas não os dos agentes de informações que, por definição, não são públicos, são secretos!
Ainda há, ainda há!
Veja-se a forma como o Presidente do Conselho de Fiscalização do Sistema de Informações da República, o deputado Marques Júnior ( e se ele é especialista…) reage, magoado: “é preciso reflectir muito bem na forma como se vai decidir sobre estas matérias". E acrescenta que, no seu relatório de 2009, o CFSIRP já alertava para as restrições orçamentais que se fizeram sentir nos Serviços de Informações.
Também o PSD se insurgiu com mais este golpe contra profissionais heróicos e dedicados, prontos a dar a sua última gota de whisky pela segurança da Pátria. O deputado Bacelar Gouveia, expert que eu proponho para a dignidade de Agente Honorário, chama a atenção de quem nos governa para que é exactamente em tempos de crise que não se devem cortar os módicos salários dessa classe tão sacrificada: "Em tempo de crise, a recolha de informações em cenários internacionais, conflitos regionais, aspectos macroeconómicos e tendências de mercado, são fulcrais para os interesses estratégicos do Estado português."
É a voz da razão, o Grilo Falante que aconselha Pinóquio (não vejam maldade nesta metáfora; estou mesmo a falar do Pinóquio da literatura, o do Carlo Collodi, o "filho" do Gepetto).
Lucidamente, o CDS-PP toma, também, posição: acompanha com preocupação a discussão pública de uma matéria reservada e adverte que "apesar da situação económica grave, não se podem pôr em causa as tarefas fundamentais do Estado, como a Segurança".
É assim, meus senhores! É assim que se defendem os interesses da Nação!
Como querem V. Exas. que os profissionais deste métier exerçam com lealdade as funções que lhes foram confiadas, como juraram, caras cobertas por cagulas e voz distorcida electronicamente, quando tomaram posse?
Como comprar bigodes postiços, tinta invisível e frasquinhos de clorofórmio, instrumentos de trabalho imprescindíveis, que são as enxadas destes lavradores do mundo secreto?
Como pagar uma champanhota às pulposas colegas do IN, antes de as seduzir com o smoking da praxe, os passeios no Austin Martin, a voz cava, como a que eu usava nos neus tempos de glória, ao anunciar “o meu nome é Rebordosa, Joaquim Rebordosa”?
Ah! Se eu tivesse levado a minha avante (salvo seja!) e tivesse criado, a devido tempo, em 1975, o “Sindicato dos Espias do Sul e Ilhas”.
Mas, como todos os visionários, foi injuriado, ridicularizado, ignorado.
Maldita cocaína (cala-te, boca!)…
______________________________________________________________
(1) Desvendo este pequeno truque, que me foi ensinado por essa águia da intelligence que foi Natassya Seminova, agente da SMERSH e borboleta da noite, consciente de que estou a violar um segredo profissional.
Mas, como diriam os jornalistas, o público tem o direito de ser informado
.

0000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000

PS (que Deus me perdoe):

Algumas horas depois de postado o texto acima, recebi um telefonema de um jovem amigo venezuelano, o Miguel Cantante, "El ratón", dedicado ex-funcionário da Dirección de los Servicios de Inteligencia y Prevención, de passagem em Lisboa integrando a Missão Avançada que prepara a próxima visita ao nosso País do Hugo Rafael, como "El ratón" chama familiarmente ao Presidente Chávez Frias.

Informava-me o meu amigo ( e não lhe perguntei como sabia em virtude da regra sacrossanta do the need to know ) que o DN eliminara da edição electrónica a notícia linkada (ah, estes barbarismos...).

Não sou estulto ao ponto de pensar que a acçãodo vetusto diário da capital se deve à minha modesta intervenção; mas lá que a notícia deixou de poder ser linkada, lá isso deixou...

Como não quero que o meu fiel e persistente leitor possa arguir a falsidade das declarações que atribuo aos estadistas que, em boa hora, defendem uma classe heróica e abnegada, aqui vai o texto integral e fiel, ipsis verbis et ad litteram, da notícia em causa, tal como podem constatar aqueles que, não sendo membros da lusa intelligence, se podem dar ao luxo de comprar o periódico, prodigalidade à malta do "Serviço" e a alguns depurados do PS frequentadores da cantina de São Bento.

Eis, pois, o texto da notícia:

Cortes comprometem 'secretas' no estrangeiro

Segurança As restrições orçamentais previstas para 2011 nos serviços de informações nacionais vão levar ao encerramento de dois terços das estações das “secretas” no estrangeiro. Com este corte drástico, Portugal perde as suas “antenas” em países estratégicos e reduz a sua actividade operacional noutros, como é o caso do Líbano e do Afeganistão, onde estão missões militares portuguesas. Segundo admitiu ao DN uma fonte bem colocada na inteligência nacional, “no caso do SIS serão reduzidas significativamente as despesas operacionais, mas no SIED terão de ser encerradas oito das 12 “estações” que neste momento estão a operar no estrangeiro”. A mesma fonte reconheceu ainda que “a situação é muito pior” que a que ontem foi descrita pelo Público, embora não estejam previstos os “despedimentos” anunciados pelo jornal.
Estas medidas são vistas com “muita preocupação” pelo presidente do Conselho de Fiscalização do Sistema da República Portuguesa (CFSIRP). Marques Júnior assegura, contudo, ter tido “a garantia de princípio por parte do secretário-geral do SIRP, que tais cortes não iriam prejudicar a actividade operacional dos serviços”. “Mas é preciso reflectir muito bem na forma como se vai decidir sobre estas matérias”, acrescenta. No seu relatório de 2009, o CFSIRP já alertava para “as restrições orçamentais” que se “fizeram sentir nos Serviços de Informações”.
O anterior presidente do Conselho de Fiscalização, Bacelar Gouveia, deputado do PSD, concorda em que “nenhum serviço da administração pública deve ficar “imune à crise”, mas sublinha a importância das “antenas” do SIED: “Em tempo de crise, a recolha de informações em cenários internacionais, conflitos regionais, aspectos macroeconómicos e tendências de mercado, são fulcrais para os interesses estratégicos do Estado português. “Bacelar Gouveia pondera requerer à Comissão de Assuntos Constitucionais que chame o “chefe” do SIRP, Júlio Pereira, para “explicar como vai executar esta medida”.
O CDS-PP “acompanha com preocupação a discussão pública de uma matéria reservada” e adverte que “apesar da situação económica grave, não se podem pôr em causa as tarefas fundamentais do Estado, como a Segurança”. O deputado Nuno Magalhães sugere que o CFSIRP se reúna com Júlio Pereira e “avalie a situação”.

VALENTINA MARCELINO

Sem comentários:

Enviar um comentário