segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Capacetes na Igreja e confiança na Providência


Ontem, o pároco de Stº António de Campolide celebrou missa com um capacete de construção civil cobrindo-lhe a reverenda cabeça.
Iguais adereços, generosamente distribuídos pelo Pe João Nogueira, adornavam os piedosos cocurutos dos fiéis.
A congregação entendia protestar assim contra o estado de degradação a que do templo; e, também, chamar a atenção para a recusa do Ministério das Finanças em transferir para a propriedade da Igreja o imóvel em questão, confiscado pelo Estado, se as gazetas não mentem, no dia 8 de Outubro de 1910, à Companhia de Jesus.
As ovelhas que o Prior de Stº. António de Campolide pastoreia receberam com palmas a homilia e, à saída, não pouparam o Governo, agremiação de pedreiros-livres e herdeiros de carbonários e regicidas, quando falaram com os jornalistas que, por acaso iam passando pala Travessa Estêvão Pinto. Mas os capacetes, que o clérigo afiançou não serem necessários os domingos , “mas se calhar estamos próximos” , podem ter um efeito preverso. Por exemplo, quando contei o caso a um “correspondente” de um país do extinto Pacto de Varsóvia, que eu julgava já completamente integrado no espírito democrático que lá reina agora, ele respondeu sibilinamente: "Pois, Quim, os capacetes são como os pára-raios”. E, perante a meu pedido de esclarecimento, ele replicou com um ar sinistramente bolchevista: “ Lembraste como se cantava nas reuniões juvenis da esquerda festiva do teu tempo: ‘pára-raios nas igrejas/ são p’ra mostrar aos ateus…’ “.
Pedi-lhe que se deixasse de provocações, que já lá vai o tempo em que essa sua especialidade era muito utilizada.
Mas fiquei a matutar num outro pecadilho do devoto sacerdote: foi quando apostrofou o Estado, e, na passada, o Ministro Teixeira dos Santos, relapso e contumaz, a quem acusou de “hipocrisia” porque há cem anos que a coisa dura e nem a ditadura o resolveu! Foi então que, de acordo com o “Público”, Sua Reverência exclamou: “Achamos que o Estado que nos tutela, sendo uma pessoa de bem, não pode lucrar com um imóvel que roubou”.
E é aqui uma espécie de paradoxo se insinuou nas palavras , pelos vistos menos inspiradas pelo Espírito Santo. É que ou o Estado é uma “pessoa de bem” e então não poderia ter cometido o feio pecado do roubo ou roubou e, nesse caso, não é pessoa de bem.

1 comentário:

  1. Pára-raios na igreja
    É p'ra mostrar aos ateus
    Que o crente, por mais que o seja
    Não tem confiança em Deus.
    (António Aleixo)

    E eu acrescento:

    O Padre João Nogueira
    De capacete enfiado,
    É como o Papamóvel
    Por medo dum atentado.

    O Papa e o Nogueira
    É que sabem como é:
    São cristãos e militantes
    Mas homens de pouca fé.

    Poeta Popular

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