terça-feira, 19 de outubro de 2010

Espiões e espiinhos


Lembram-se da tempestade de verão que, no ano passado, se abateu sobre Belém e São Bento sobre o tema “quem escuta quem, quem espia quem”?
Lembram-se de um “café discreto na Avenida de Roma”, palco de encontros mais ou menos secretos entre “assessores” (pois, pois, assessores…) e “jornalistas” (sim, jornalistas ... nós percebemos)?
Foi nesse simpático estabelecimento de comes e bebes, com o qual, a partir desse episódio, passei a simpatizar, que hoje degluti o croissant simples e bica italiana com que quebro o jejum, frente aos matutinos da capital.
Eis senão quando esta notícia no DN chamou a minha atenção. “Medvedev condecora espiões”.
Lembrei-me de um comentário que na altura deixei num muito frequentado blog, o “Duas ou três coisas”, em que, com alguma nostalgia, tenho que o confessar, dava conta do desalento que o “caso dos espiões russos” em mim despertava.
De facto, a falta de profissionalismo, o “deixa andar” inconsequente, o desprezo pelas regras mais elementares de uma romântica clandestinidade, não agradaram ao velho guerreiro que sou, retirado é certo, mas ainda atento e apreciador da velhíssima “arte”.
O prenúncio desta condecoração, de que o periódico que o senhor João Marcelino tão proficientemente dirige nos dá conta, veio poucos dias a seguir à troca entre os “Dez” e os “Quatro” (respectivamente russos e americanos, está bem de ver):
O mesmo Medvedev, Dimitri de sua graça e Presidente da outrora gloriosa Rússia, oferecia (pasme-se!) aos “seus” agentes, que se tinham deixado desmascarar sem sequer terem executado uma acção, transmitido uma informação valiosa, “virado” um alto dignitário da Administração Obama, PENSÃO VITALÍCIA E CASA PAGA! Denunciou este escândalo, aqui, o próprio “Expresso”, esse arauto da competência e da lisura!
Ora, se o grupito de funcionários, yuppies e flausinas (como aquela cuja fotografia ilustra este post, uma tal Anna Chapman de seu nome), apanhados como moscas burocráticas na redezinha borboleteira da contra-espionagem americana, já tinham direito a pensão vitalícia (choruda, estou certo) e a casa paga (luxuosa, ça va de soi) porque não uma condecoração? Porque não a Grã Cruz da Ordem de Ivan “o pateta”?
Nos tempos heróicos, o velho e combativo KGB honrava os seus heróis conferindo-lhe altas patentes militares que eles, dada a sua condição de clandestinidade, nem sequer podiam publicitar. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o meu ainda familiar Harold Adrian Russell, mais conhecido pelo petit nom de Kim, meu homófono por coincidência da História ou private joke dos meus progenitores, feito General.
Agora, é pensãozinha, quatro assoalhadas e uma comenda…
Tristes dias!
Espião? Não, quando muito espiinho.

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