quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Conselho de Segurança, a Segurança e a Diplomacia


Antes de postar, deixei baixar o volume de som do coro de encómios, aplausos, louvores, elogios e congratulações com que foi saudada (e bem) a eleição de Portugal para o Conselho de Segurança.

Os títulos das gazetas, as apóstrofes da telefonia, os entusiasmos da téle-visão pareciam tirados daquele cartoon do "Spy versus Spy", só que os dois "Spy" eram brancos: “está de parabéns o MNE”, o “PM congratula-se”, “o Presidente da República elogia”, “a diplomacia portuguesa vitoriosa”, e aí por diante.

Certamente, a ocasião propicia esta polifonia; e a auto-estima nacional, que nem o Raul Meireles e os seus pares têm conseguido ajudar a crescer, andava necessitada de qualquer coisinha que adiasse o mergulho definitivo na depressão mediática.

Pelo menos até à próxima conversa do Dr. Medina Carreira com o Dr. Mário Crespo.

E são merecidos, os elogios tão amplamente distribuídos.

Entre eles, saliento os que foram dirigidos aos “primos” diplomatas, gentis Penélopes (1) tecendo, na Ítaca global, a grande teia que cujo nó final foi a sessão do dia 12.

Aproveito, então, para procurar desfazer um equívoco, de que são responsáveis autores de romances de espionagem e campanhas de desinformação de colegas menos escrupulosos (que também os há, embora raros).

Trata-se de um manto de calúnias e insinuações lançado sobre o pundonor de duas laboriosas classes profissionais: o despudorado insulto que sugere promiscuidade entre os diplomatas e os profissionais da minha área.

Não! Concorremos no mesmo objectivo? Sim.

Utilizamos meios e processos por vezes semelhantes? Muitas vezes.

Temos marcada gosto pelo gin tonic with a slice of lemon( twisted, not squeezed)? É certo.

Atraem-nos as mulheres voluptuosas, louras, em bikini branco e sapatos de salto agulha? So what?

Circulamos em carros desportivos potentes, cheios de gadjets, estofos de couro e tabliers de madeira de teca? Claro.

Falamos várias línguas? Que remédio...

Mas as semelhanças param por aí.

E isto é um facto que conheço de fonte segura. Garantiu-mo, há muitas décadas, numa capital em guerra de um país do Médio Oriente, um simpático diplomata soviético.

“ Nós, lá na Lubianka” – disse-me o Conselheiro de Embaixada Oleg Penkovsky, num tom de sinceridade que excluía qualquer suspeita – “nunca confundimos as duas profissões”.

Acho que “Lubianka” é como eles chamavam ao MNE deles, tal como nós chamamos “Necessidades” ao nosso.

Seja como for, espero que os colegas no activo se ponham à disposição do Embaixador Moraes Cabral, para os precisos.

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(1) Que não se queira ver no devaneio poético desta metonímia alguma torpe insinuação sobre a masculinidade dos nossos (não me refiro às nossas) diplomatas, cujas presenças musculadas e hirsutas, vozes cavas e ombros largos, os colocam ao abrigo de qualquer suspeita dessa natureza.

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